Entrevista: Até Onde Vais com 1000 Euros?

2 bicicletas e mil Euros cada um, foi quanto bastou para o Jorge e o Carlos partirem para uma aventura em África, a qual foi partilhada através do blog “Até Onde Vais com 1000 Euros?“.

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Apesar do pouco tempo disponível, estes dois aventureiros acederam amavelmente a responder a algumas perguntas. Leia em baixo a resposta ás mesmas.

VMB: Fez há pouco tempo 1 ano (21 de Fevereiro de 2009) que iniciaram a aventura de ir a Dakar de bicicleta com apenas €1000 cada um. Se fosse hoje tinham alterado algum detalhe ou até mesmo o destino?

Carlos: Olhando para trás acho que correu tudo na altura certa, com a medida certa e não alterava nada.

Jorge: A viagem ultrapassou todas as expectativas… não me atreveria a mudar nada.

VMB: Gastaram os €1000 todos ou sobrou algum?

Carlos: Nem um tostão!

Jorge: E ainda comemos um bitoque, à chegada de Portugal. Foi a única “derrapagem” no nosso orçamento.

VMB: Esta aventura mudou de alguma maneira a forma como vêem o mundo e inclusive a vossa vida?

Carlos: A forma de ver o mundo mantém-se, talvez de uma forma mais vincada: o mundo está à nossa espera, pacifico e com os braços bem abertos para nos receber, se assim o quisermos “navegar”.
A vida tem, sem dúvida, um “antes” e um “depois” da aventura. Antes éramos dois sonhadores a flutuar em mapas e projectos agora esse sonho já foi vivido, bem junto à terra! É fantástico.

Jorge: A forma como vemos o mundo evolui ao longo da vida, com a experiência que se adquire, com as experiências que se vive. As viagens são, claro, janelas privilegiadas sobre o mundo real – e estes quatro meses e meio na estrada, a um ritmo a que eu nunca tinha viajado, surpreenderam-me, desafiaram-me e incentivaram-me a continuar por este caminho.

VMB: Com certeza que cometeram alguns erros durante a vossa viagem a Dakar. Querem dizer quais foram esses erros para que outros não os cometam?

Os dois: Não levar os discos de formatação do computador!

Carlos: Foi o único erro com algum arrependimento que tivemos quando o portátil apanhou um vírus. Todos os outros “erros” são brilho e cor a qualquer viagem que não caiba num pacote (onde se paga exactamente para não haver grandes surpresas). Claro que algum “traquejo” de viagem ajuda a minimizar esses erros.

Jorge: queríamos fazer desta viagem um projecto de comunicação, e o blog era a nossa grande montra. Quando o computador ficou infectado… achei que tinha acabado tudo ali. Devíamos ter pensado nisso. De resto, tudo o que possa ser apelidado de erro deve ser encarado como um “tempero”: resolve-se, aprende-se, sempre em frente!

VMB: Viajar de bicicleta requer levar apenas o essencial. Quais as vossas dicas para os leitores do VMB? O que devem eles deixar em casa e o que não podem deixar de levar?

Carlos: Um regra número um é que praticamente tudo o que possamos vir a necessitar, se pode comprar nos países por onde vamos passar. Por isso quando se faz a malas e sai o comentário “isto pode dar jeito” ou “isto pode fazer falta” soa o alarme! Isso fica para trás!
Material de cozinha e tenda corta uma enormidade nos custos, essencial para quem tem muito tempo e pouco dinheiro. Quem comprar os kits completos de ferramentas para bicicleta (como nós) não se esqueçam que eles não vêm completos! Falta a chave inglesa, comprem à parte!

Jorge: Levávamos um “kit cozinha”, que foi essencial para cozinharmos as refeições. Além do material propriamente dito, tínhamos uma caixa com sal, azeite e alguns temperos. Também levávamos kit primeiros socorros, outro de ferramentas, e o costume: roupa, higiene e tendas. Pouco mais. E tudo o que eventualmente faltasse, podia-se comprar a caminho.

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VMB: Qual foi a refeição mais memorável que tiveram durante a vossa aventura?

Carlos: Uma sandes de queijo “la Vache qui rit” com tomate e coentros. O sabor especial, nesta receita tão simples, é que os coentros nos foram oferecidos por um berbere que os foi colher à sua horta à entrada do Sahara. Não sabia que nasciam coentros ao lado do deserto, nem que podiam cheirar tão bem!

Jorge: Cabeça de cabra num barbeiro, em Tiznit. Apesar de me lembrar bem de tantos “momentos culinários”, foi esta a refeição que mais me marcou. Tínhamos acabado de chegar a território berbere, e logo na primeira noite fomos convidados para este manjar… inesquecível! Também não me posso esquecer da Poms, uma bebida gaseificada de maçã… fiquei viciado! Todos os dias bebia uma garrafa.

VMB: Deduzo que tenham outra aventura em mente. Qual a vosso próximo desafio?

Carlos: Vamos fazer uma viagem a pé, mas ainda estamos a ultimar detalhes.

Jorge: É um projecto “encomendado” pela Livros D’Hoje, a nossa editora. Querem fazer um guia dos caminhos de peregrinação em Portugal… Fátima, Santiago de Compostela… estamos neste momento a finalizar a preparação, e em Maio devemos partir para a estrada. Mas desta vez não há blog… pelo menos para já.

VMB: Editaram o livro “Até Onde Vais com 1000 Euros?”. O que podem os potenciais compradores e leitores do VMB lá encontrar e porque o devem comprar?

Carlos: O livro tem um lado de “making of” da viagem. Se no blog fomos os olhos de quem quis viajar connosco, o livro vai um pouco mais além – a história está lá, mas aprofunda mais os personagens que nos cruzamos, os episódios, o que nos passava pela cabeça para além de todo o processo que culminou com este projecto. Porque é que o devem comprar? Porque o espírito do livro é igual ao da viagem – a vida é uma brincadeira, há que brincar com ela!

Jorge: Porquê comprá-lo? Porque esta viagem é um bom exemplo de como aproveitar ao máximo as coisas que a vida nos dá. Com 1000 euros fomos a Dakar… e voltámos? Óptimo, mas o melhor de tudo é que nos divertimos, vivemos peripécias inesquecíveis, fizemos amigos, aventurámo-nos sempre com um sorriso… e é este sorriso que tentamos transmitir. Temos recebido muitos e-mails, e comentários no blog, de pessoas que leram o livro quase de uma assentada só, o que é excelente tendo em conta que são quatrocentas e tal páginas. É bom saber que o livro “agarra”, porque esse é o primeiro passo para as pessoas levantarem a hipótese de, quem sabe, um dia destes fazerem qualquer coisa do género. Mesmo que não seja a Dakar, mesmo que não seja com 1000 euros, mesmo que não seja de bicicleta. O que interessa é ir.

VMB: Fizeram uma digressão low cost (leia-se de bicicleta) pelo país a promover o vosso livro. Alguma história engraçada para partilhar?

Carlos: No meio da Serra do Alvão uma miúda passa de carro e diz – “ I think you lost you sleeping bag!”. Depois de 2.500 km a pedalar a confiança pregou-me uma rasteira e tinha o saco cama a rolar pela estrada! Acabámos amigos da miúda, a Renata, e ainda fizemos uma jantarada passados uns dias em Guimarães. Em viagem os “erros” são muitas vezes o ponto de partida para uma boa experiência.

Jorge: Felizmente, muitas! Íamos mentalizados que estávamos a fazer um passeio, e foi uma surpresa perceber que, ao longo de um mês e em território nacional, era possível viver outra aventura. Encontrarmos uma Nossa Senhora da Estrela, quando na viagem para Dakar dizíamos que tínhamos uma estrela a acompanhar-nos… passar um dia inteiro a subir uma serra… e outro a descer o Douro… apanhar chuva… conhecer pessoas que nos tinham acompanhado no blog… foram muitos os “momentos” desta viagem!

VMB: Para terminar. Já percebem alguma coisa de bicicletas?

Carlos: Só remendar furos e nesta viagem dei o grande passo de mudar um travão… depois de ter partido com a própria mão um “ferrito solto”… que servia de mola ao próprio travão! Uma vergonha.

Jorge: Acho que aprendi mais de mecânica neste mês em Portugal do que em toda a viagem até Dakar. Pneus furados, travões desafinados e uma mão cheia de pequenos eventos obrigou-me a olhar com outros olhos para a bicicleta. Mas infelizmente ainda não tenho qualificações que mereçam um honoris causa!

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Obrigado aos dois.

Até Onde Vais com 1000 Euros?

Este post tem 2 comentários

  1. gostei muito de ler as vossas aventuras
    e acho que sao muito enrriquecedoras para qualquer pessoa que se disponha a largar parte do seu conforto para rasgar horizontes e ver mais alem
    li tambem que pensam organizar uma viagem a pé por portugal e arredores
    é uma coisa só a dois ou outras pessoas podem participar ????
    agradeço que me respondessem para o email pois estou bastante interessado nao maneira como viajam
    votos de boas aventuras
    duarte

  2. Mais uma razão para aproveitarmos os momentos da vida ao máximo e aprendermos a ser mais livres pelo mundo fora. Quantas pessoas não lhes devem ter dito, antes de iniciarem a viagem, que eles eram loucos, que iam correr perigo, que isto e aquilo… E ali estão eles na foto, em Dakar, com um sorriso chamado vitória e mais bronzeados que nunca! 🙂
    Em vez das aventuras que têm feito, podiam ter ficado estes últimos anos trancados num escritorio a cumprir a rotina comum… Para quê?

    Muitos parabens aos dois. Tal como o Gonçalo Cadilhe, vocês são uma inspiração e já pedi à minha mãe para me enviar o vosso livro para Istambul, onde vou ficar a viver uns tempos. Muito obrigado por seguirem um caminho diferente e, dessa forma, elevarem a moral de qualquer um!

    Jorge
    (jorgemcordeiro@live.com.pt)

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